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Eu e o Turismo (Dia Mundial do Turismo)

Há exatos 19 anos decidi o que queria fazer para o resto da vida, Turismo. Vocês devem estar rindo de mim e me chamando de “Turista”, mas não é nesse sentido. Deixa contar para vocês.

Aos 15 anos ganhei de meus pais uma viagem, muito sonhada, para os EUA. Com mais algumas amigas, embarquei em busca de momentos especiais e muita felicidade. Lembro quando o avião tocou o solo americano eu estava com meu passaporte nas mãos e a sensação era de gratidão, o sorriso se fez forte em meu rosto. Foram dias de alegrias, descobertas, liberdade e muito conhecimento. Meus olhares já eram de quem faria do Turismo seu grande amor, já buscava curiosos a diversidade cultural, aspectos técnicos na hotelaria, o que movia a economia, como aquela sociedade se movia das mais diversas formas. Eu já observava os guias indo e vindo, como coordenavam aquela orquestra de quase 400 adolescentes, quantos ônibus, como chegar ao local, os médicos que acompanhavam o grupo.

Tudo para mim era beleza. Até que um dia, já em água (um cruzeiro), sentada no deck da piscina, observando a dinamicidade das relações felizes e leves que se desvelava aos meus olhos, unindo turistas e trabalhadores do turismo, que abriam mão de seu próprio lazer para organizar tudo aquilo para as pessoas, eu decidi! Quero fazer o curso de Turismo. Invariavelmente fiz uma retrospectiva em minha mente. Meu passeio favorito quando criança era ir ao aeroporto, todos os domingos! Adorava dar tchau para pilotos e comissários de bordo, o ir e vir as pessoas subindo e descendo do avião, o ir e vir dos aviões. Lembro de pensar na marinha e na aeronáutica, mas nunca me senti apta a desbravar aqueles mundos. Contudo aos 15 eu soube! É do turismo que vou amar.

A graduação foi maravilhosa e o começo do que hoje diz muito de mim. No primeiro dia de aula chorei e a professora, igualmente apaixonada, me questionou “por que está chorando?”, respondi enxugando as lágrimas “Obrigada professora, estou realizando um sonho”. Sonho esse que me fez inquieta sobre as coisas do turismo sexual desde o primeiro semestre. Me sentia responsável, precisava pensar como minimizar aquilo tudo, fazer minha parte! O sonho feliz de uma viagem tranquila acabou ali, eu me dedicaria a estudar o lado mais obscuro e ilícito ao qual o turismo está associado e colabora. Na Psicologia ganhei força e movimento, com ela comecei a desvendar alguns mistérios e descobrir que na verdade o que me faz feliz é a ciência e sua relação com o turismo, a descoberta, a dinamicidade da pesquisa e a capacidade de buscar consciência a partir das áreas de conhecimento.

A dedicação era uma máxima para mim! Sem isso acreditava que não seria uma boa “turismóloga”, entre estágio, empregos, inclinação deixei alguns amores pelo caminho, alguns momentos com a família, deixei feriados, deixei os amigos, mas nunca deixei o turismo. Brincava entusiasmada “o turismo é um homem moreno alto, bonito e sensual”. Brincadeiras à parte, dediquei meu olhar as questões ilícitas que envolviam o turismo, a Psicologia Juridica se tornou uma paixão. Lembro com carinho dos amigos (presentes até hoje) acolhendo a mim que parecia não pertencer de forma alguma parte daquele mundo. Os dias eram repleto de encantamento e de dedicação, pois tinha que estudar o triplo, mas fazia feliz. Psicopatia, formação social da infância e da família, epistemologias e tantas outras questões, que apenas me fizeram entender que a ciência era o meu caminho. Costumo dizer que há uma Marcela antes e depois da Psicologia Jurídica. Estudei o tráfico de mulheres e crianças e pude, durante 3 meses, conviver e refletir no CHAME (centro Humanitário de Apoio à Mulher) na cidade de Salvador com histórias e ações de mulheres do mundo todo, experiência única.

Assim como era certo que amava o turismo, era verdade que além dos passeios ao aeroporto minha vida seria dedicada a docencia. As minhas bonecas foram alfabetizadas quando eu tinha 5, 6 anos e Mainha sempre conta, com orgulho e amorosidade, que seus sapatos e roupas sumiam, e num piscar de olhos eu aparecia toda arrumada (ao meu modo) dizendo “bom dia queridos alunos”. Na adolescência ela explicava que eu ia ser professora, e eu teimava em dizer que não. Descobri que em certas circunstâncias não “escolhemos” o que queremos, apenas vivemos e tudo aflora como as rosas do jardim. Na mesma intensidade que queria continuar pesquisando e agindo sobre as questões de ilicitude no turismo, eu entendi que com minhas palestras e tentativa de organizar uma Ong em Maceió não seriam suficientes, que na verdade era muito mais interessante influenciar pessoas. Fui para a pós-graduação em pesquisa e docencia no ensino superior.

Outros muitos amigos, outras muitas reflexões. Filosofia da Educação, Educação no Brasil, Paradigmas epistemológicos e eu me “joguei” naquele mundo fascinante. Como a ciência me encanta! Com os processos e rupturas, com as racionalidades que se formam, com as formas com se organizam as sociedades e as culturas, com a presença irreversível da ciência (já explica Paviani). Encantamentos que me levaram a pedir demissão da agência de turismo e da faculdade que dava aula, para encarar o maior dos desafios, atravessar o país em busca de conhecimentos, habilidade e atitudes, meu mestrado.

Com a cara e a coragem, sem parentes ou amigos próximos, embarquei com o coração nas mãos, para aquela que era minha maior aventura. Pesquisei programas de mestrado que pudessem estar mais próximos ao meu perfil e encontrei o Programa de Pós-Graduação em Turismo da Universidade de Caxias do Sul/RS, em 2008. Me encantei com o perfil da Instituição e do programa e fui impulsionada a desbravar minhas próprias limitações, potencializar minhas qualidades e lá fui muito bem recebida e acolhida. Muitas vezes buscamos as notas do programa e esquecemos o mais importante é a própria construção da concepção científico-pedagógica! bem atenta percebi que era o único do país que explicitamente demarcava seu posicionamento, e por que é importante? É sobre minha formação que estamos falando e toda base conceitual que norteará o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes.

Recordo quando fui, pela primeira vez, ao meu bloco, o 46, encarei a enorme diferença no qual diz respeito aos aspectos culturais, sociais e ambientais. Lembro de pedir informação a um estudante, no trajeto ao 46, e ele não compreender o que estava sendo questionado. Em meio a risos, descobrimos que os sotaques e as diferenças de linguagem e de entonações regionais nos “impediam” de nos comunicar, assim como para alguém que vivia em temperaturas entre 25º e 35º passar a viver em temperaturas negativas era algo igualmente a desbravar. Hoje percebo, quando retomo meu olhar ao tempo do Mestrado, que meu maior aprendizado foi e é (sempre um devir) a busca pela capacidade de abertura ao outro que é diferente de mim, pois não mais procuro Maceió em Caxias do Sul, busco a Marcela integrada às muitas faces da especial Caxias do Sul”.

Foram os aprendizados na época de meu mestrado (entre 2008 e 2010) e a lembrança do slogan da Universidade – “Pés região e olhos no mundo” – que me fizeram esperar pela abertura do Doutorado. Simplesmente pela certeza da pessoa que me tornei, cidadã do mundo e de mim mesma. Também, por acreditar na vanguarda desses outros olhares que o Programa desenvolve, em comparação ao cenário nacional dos cursos de pós-graduação stricto sensu em Turismo e Hospitalidade, que me fez e me faz acreditar na minha escolha.

Meu retorno à UCS, depois de cinco anos, para iniciar o doutorado, possibilitou perceber mudanças na cidade, nas pessoas, na vida. Mas sobretudo percebo mudanças em mim, o olhar já não estranhava mais as ruas e as faces, nem o paladar era diferente. Na verdade, ansiava pelos sabores já conhecidos. Acredito que o difícil em vir para Caxias é querer ficar em Caxias (rsrs). É paradoxal! Ao menos para mim… chegar e em primeiro momento sentir e pensar que um dia terei que ir embora. Academicamente, novas aventuras e desbravamentos, agora novas competências se desvelavam, o que era quantidade e qualidade, passou a ser aprofundamento e qualidade. E o que dizer sobre os questionamentos infinitos “Qual é a sua tese?”. Pessoalmente, minha maior satisfação é me sentir cidadã do mundo! Acolho a cidade e a cidade me acolhe”, simetria na relação.

Pois (para brincar de ser portuguesa) agora em Portugal estou! Se calhar fico por aqui, rs. O turismo e a hospitalidade estão a me chamar. A oportunidade de vir a cidade do Porto me fez um “boom” fantástico na cabeça e na vida, não maior de quando cheguei a Caxias, porque incrivelmente, desde o primeiro dia me senti em casa em Portugal, mas pensar que achei que aqui nunca estaria e poder sentir, viver, provar dos sabores e dissabores do viver na Europa trouxe-me outras perspectivas. Se me sentia cidadão do mundo, hoje tenho certeza que sou. Devo isso a minha queridíssima orientadora, Marcia Maria Cappellano dos Santos e sua parceria/parceira de pesquisa em Portugal, igualmente, hoje, minha orientadora Isabel Baptista. Para além de potencializar o apoio mútuo entre elas e as universidades, na construção teórica de referência, como primeira doutoranda em estando com bolsa de doutorado sanduíche o que fica é a responsabilidade de tentar representar bem o Brasil, a UCS, ao grupo de pesquisa e a mim mesma.

Feliz por minhas escolhas profissionais, lamento apenas algumas perdas pelo caminho. A vida pessoal e social sofre com a dedicação e as distâncias, mas infelizmente são escolhas e a dinamicidade da vida nos impõem formas de ser e de agir. Mesmo tentado equilibrar as coisas estar sozinha quase sempre é uma constante, mas com sorte chegará o dia em que o turismo não será um casamento, mas um companheiro de aventuras e de descobertas, um outro “alguém” aparecerá para roubar-me dele.

Cada período foi de aprendizagem de mim e das coisas do mundo. Muitas pessoas passaram e deixaram um pouco de si e levaram um pouco de mim, muita gratidão eu sinto. Gosto de olhar para trás e perceber que muitas histórias se embaralharam na minha e que muito aprendi. Então, sendo quase triplamente turismóloga, ou como usamos em Portugal, “Cientista do Turismo”, espero que venham novas possibilidade e encontros pelas trajetórias. Obriga a todos que estiveram e estão comigo nessa viagem!

Hoje no meu dia, dia do Turismo, dia do Turismólogo, dia da cientista do Turismo não quero nada mais que vivê-lo estudando e me dedicando a ele... Orgulho do que me torno e do faço!

Parabéns a todos os turismólogos e, sobretudo, por não desitirem dessa profissão belíssima e empolgante!


27 de setembro de 2017.

Cidade do Porto/Portugal.

Fonte da imagem: Marcela F. Marinho

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